sábado, 15 de junho de 2013

O menino e a bolsa



Era uma vez um menino que morava dentro de uma bolsa. Bolsa apertada, o menino tinha que se espremer lá dentro, mas cabia. A bolsa atendia a quase todas as necessidades do menino, se quisesse comer tinha bolsa, se quisesse comprar tinha bolsa, e se quisesse ficar sem fazer nada também tinha. O menino acostumou-se tanto à vida dentro da bolsa que esqueceu de como era viver fora dela, e tornou-se dependente. Pra que se esforçar se ele tinha a bolsa? A bolsa era mágica, fazia tudo por ele, e o melhor de tudo: era de graça. De quem tinha ganhado? Quase não se lembrava o nome, só sabia que deveria ser grato pro resto de sua vida. Faria de tudo pra manter a bolsa, afinal, como viveria sem ela?
De tanto ficar lá dentro, ele acostumou-se ao escuro. Não via a luz do sol, não sabia como era. Um dia, por razão desconhecida, o zíper da bolsa emperrou. Na tentativa de arrumá-lo, o menino acabou abrindo a bolsa. De susto, se escondeu. Ao se acostumar com a claridade, decidiu olhar o mundo lá fora.
Se espantou muito mais. Lá fora havia meninos sem bolsa, que tinham que se esforçar pra conseguir o que queriam. Lá fora havia gente com fome, gente com frio, gente sem bolsa e gente que parecia ter um estoque infinito delas. Horrorizado, o menino fechou a bolsa e decidiu ficar lá dentro pra sempre. A vida lá fora era estranha, ainda bem, pensou ele, que tinha ganhado a bolsa para poder fugir dela.



Laura Leão